Palavra do editor

Seja bem vindo(a) ao blog Montanhismo Gaúcho!

Aqui você encontrará, em ordem cronológica, as principais realizações dos montanhistas gaúchos dentro e fora do Rio Grande do Sul. Histórias sobre ascensões pioneiras, expedições, ...

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Boa viagem!

Orlei Jr.

sábado, 21 de maio de 2016

O RS no topo do Everest!


Dia histórico para o montanhismo gaúcho!


Cristiano Muller é o 16° brasileiro e o 2° gaúcho a pisar no ponto mais alto do planeta!!!

Mais informações em sua página no Facebook https://www.facebook.com/cristiano.muller.73

Parabéns Cristiano!!!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Marco Cony no Himalaia

Foto: Guia Sherpa (ainda não identificado)

Marco Cony, filho de Luiz Gonzaga Cony (pioneiro da escalada em rocha no RS) e irmão de Luiz Henrique Cony (atual presidente da FGM), está no Himalaia!

Iniciou o processo de aclimatação e deve tentar alguma montanha por lá.

Aguardemos notícias.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ricardo escala a agulha Saint-Exupéry


Depois de escalar no início de novembro a Agulha Poincenot, desta vez Ricardo alcançou o cume da Aguja Saint-Exupéry, com 2558 m e situada no cordão de montanhas do Fitzroy. A via escolhida foi a Kearney / Harrington, escalada pela primeira vez em 1988 pelo casal norte-americano Alan Kearney e Sue Harrington. A via tem cerca de 550 m, precedida por um longo trecho de rampas de pedra e gelo, começando na face oeste, nas profundezas do Vale da Torre, até próximo do colo com a agulha Rafael Juarez (também conhecida como Innominata), onde a linha segue pela face leste.

A Saint-Exupéry foi batizada pelo cartógrafo francês Louis Lliboutry, membro de uma grande expedição francesa que em 1951/52 fez uma detalhada exploração da região. Faziam parte desta expedição também os escaladores Guido Magnone e Lionel Terray, que alcançaram pela primeira vez o cume do Cerro Fitzroy. O cartógrafo francês batizou na ocasião alguns dos principais cumes de Chaltén, entre os quais as agulhas Poincenot, Mermoz, Guillaumet e Saint-Exupéry. Jacques Poincenot era um jovem escalador e membro da expedição francesa; ele afogou-se no final de 1951, durante uma travessia do Rio Fitzroy. Os outros homenageados eram pilotos do correio postal aéreo argentino, que voavam nesta região na década de 30: Jean Mermoz, Henri Guillaumet e Antoine de Saint-Exupéry. A linha de correio aéreo era operada na época por uma empresa européia, o que explica a presença dos pilotos franceses na Patagônia. Saint-Exupéry tornou-se depois mundialmente famoso como escritor, com destaque para a fábula infanto-juvenil 'O Pequeno Príncipe', um livro vendido e traduzido em quase todos os países do mundo.

A primeira ascensão da Aguja Saint-Exupéry aconteceu apenas em 1968, por um quinteto italiano (uma mulher e quatro homens), que chegaram ao cume pela via Italiana (700 m, 7A/A1). Atualmente, esta agulha tem cerca de 11 vias, mais algumas variantes, com alturas entre 450 e 750 metros. É uma boa opção para janelas de tempo mais curtas, com vias de menor extensão (para os padrões da Patagônia) e rocha de excelente qualidade. Porém, como podemos perceber no relato de Ricardo Baltazar, nada na Patagônia costuma ser fácil ou rápido. Tudo irá depender do clima e das condições da parede, somados aos inevitáveis imprevistos de uma escalada em ambiente alpino. Além da ascensão, Ricardo comenta ainda alguns aspectos do seu cotidiano em Chaltén, alternando períodos de trabalho, treinos e escaladas. 

"Dale cabeçada!

Subi mais uma !!! Desta vez, foi a agulha Saint-Exupéry !!!! Isssaaaa ! Fui lá em cima ver se encontrava o tal asteróide B 612 !! Para quem não sabe ou não lembra, esse é o planeta onde vive o Pequeno Príncipe, perdido em algum ponto do espaço.

A coisa por aqui tem estado meio enrolada, nem só de escaladas é feita uma temporada na Patagônia, as janelas de tempo bom são curtas e os períodos de espera longos.

Depois de escalar a Poincenot, trabalhei bastante. Pêlo-duro é assim, se quer escalar, tem que trabalhar antes.  Tenho feito uns 'porteos' até o Paso Marconi, que fica bem longe, às bordas do Gelo Continental, depois de Piedra del Fraile (camping de onde se tem acesso ao Paso del Cuadrado, ponto de partida de escaladas na Guillaumet, Mermoz, face oeste do Fitzroy, etc). Outro dia, eu e um amigo argentino fomos com os guias e mais 10 clientes até La Playita, um acampamento a umas 3 hs de caminhada do Fraile. Ando até pensando em morar na Playita, tenho feito porteos seguidos para estes lados e o lugar é alucinante, próximo da Aguja Pollone. Ali dormimos uma noite, acordamos no outro dia às 5 da manhã, calçamos botas e crampons, e seguimos com as cargas até o Glaciar Marconi, onde descarregamos, perto do acampamento onde iriam dormir os clientes. Existe um percurso de 7 dias, chamado 'Volta ao Gelo Continental', e que passa por trás de todo o cordão do Cerro Torre, caminhando no gelo. Nosso trabalho tem sido levar cargas até o glaciar e dar um apoio neste trecho inicial. É massa, pagam bem por isso, estou safo por uns tempos, mais tranquilo para pensar em escalar. Também fui umas vezes ao Glaciar Torre, como assistente de guia, conduzindo grupos de clientes. Foram 4 dias de trabalho duro, sem descanso. O cara volta 'destrozado'. Estas jornadas são fortes e acabam sendo um bom treino para a montanha. O roteiro para o Glaciar Torre começa às 7 da manhã e o retorno é quase às 8 da noite, é um dia full, quase sem parar, nem mesmo para comer. Este mês foi bom, deu para voltar a comer como gente e não como 'perro', ando comendo até iogurte com cereal no café da manhã, nem em casa eu como isso !

Pensei em seguir ao Glaciar Viedma, para um trabalho como assistente em um grupo, mas na real precisava parar um pouco, já estavam me doendo os pés e os joelhos, era hora de descansar. A gurizada está se puxando nos trampos, já que nesta temporada estão precisando de porteador para todos os lados. Maluco, chega a faltar porteador para alguns trabalhos. No ano passado não estava assim, acho que é porque tinham poucos guias e muitos carregadores. Já nesse ano, muita gente prestou exame no Parque para trabalhar como guia (até porque ganha mais) e assim tem sobrado esse tipo de trabalho, de apoio.

No final do mês eu mandei para o alto alguns serviços, para treinar e descansar as pernas. Teve uma janela lá pelo dia 25, mas eu já havia fechado com um grupo para o Glaciar Torre. Tenho treinado num ginásio que existe em Chaltén, gratuito, estou me escalpelando de tanto escalar no muro. Existem ainda inúmeras vias esportivas e boulders no entorno da vila. Também tento passar o rodo nos argentinos nas partidas de futebol, mas isso são outros quinhentos, os caras jogam bem e eu só engano !

Os austríacos com os quais eu escalei a Poincenot voltaram da montanha por estes dias. O Toni e o Lui estiveram metidos no fundo do Vale Niponinos, bem além do bivaque Noruegos. Estiveram escalando umas agulhas que chamam Inti, Atchachila e Pachamama. São distantes, existe um roteiro chamado trilogia inca, que é uma travessia destas 3 agulhas. O tempo esteve bem instável, com chuva, vento e frio. Acho que os austríacos tiveram que agüentar bastante coisa, mas conseguiram completar as escaladas. Eles foram embora no fim de novembro. O Toni deve voltar em janeiro, parece que com o David Lama. 

Vinha pensando em ir também para aqueles lados, para o Vale do Torre. Um par de gringos subiu a Via do Compressor uns dias atrás. O tempo esteve meio ruim em novembro e isso deve ter impedido os austríacos de fazer uma tentativa séria na Maestri-Egger, na face norte do Cerro Torre. O Toni, junto com outro austríaco, foram os que chegaram mais alto nesta rota, tiveram que retroceder já próximos do cume. O Toni esteve 3 vezes nesta rota e está empenhado em ser o primeiro a fazer uma ascensão completa da face norte da montanha. É até mais complicado do que subir a parede sul, onde o Ermano Salvaterra abriu a Infinitu Sud. Esse italiano ficou quase um mês na parede, vivendo dentro de um latão com mais 2 micróbios, alta conquista. 

Pois é, neste meu descanso veio uma janela de tempo bom, 4 dias, com um pouco de precipitação no meio. Descansei na quinta (01/12), aproveitando que na quarta todos se arrancaram para escalar em algum lado. O camping e a vila ficaram tranquilos, os micróbios correram tudo para as montanhas !!! Arranjei-me com um amigo e guia argentino, o Gaston Carlos. Eu conheci o Gaston na temporada passada e combinamos de ir para Niponinos na sexta de manhã, pensando em escalar algo na área. Primeiramente, esse algo seria a via Chiaro di Luna (750 m / 6C), na Aguja Saint-Exupéry, mas acabamos no fim 'cambiando' os planos e fomos para a clássica Kearney-Harrington. É mais fácil escalar a via do que pronunciar os nomes dos caras ! Para a Chiaro di Luna, já havia fila no bivaque Polacos, localizado a cerca de 40 minutos de caminhada acima do campo-base Niponino. Chegamos por lá na sexta à tarde, e assistimos de camarote duas lanternas que tentavam subir o largo Bridwell, lá pelas 8 da noite, na Via do Compressor do Cerro Torre. Os caras deviam estar se cagando de frio, porque ventava a full no vale, mas no fim eles subiram o monstrengo. Eram 2 tchecos, esses caras do leste europeu são tudo casca-grossa.

Sábado, em torno das 4 da manhã, levantaram-se todos que estavam em Polacos e foi cada um ao seu calvário, para uma boa sessão de chibatadas !!! Dois suiços e uma outra cordada avançaram sobre a vertical Chiaro di Luna. Eu e o Gaston seguimos outro caminho, subindo por uma rampa de neve sem fim, foram 2 hs até chegar ao pé dessa via de nome impronunciável ! Grudamos nas fendas tal qual carrapato e 'dale para arriba'. Fendas e fendas perfeitas, como nunca tinha visto igual. Os largos são fáceis (dependendo das condições, claro). Na via predominam passadas de 4º, 5º e 6º graus em rocha, às vezes quebradiça, às vezes sólida, mas com boas proteções o tempo todo. Lá pelas 14 hs, estávamos fazendo a virada característica desta via, onde se sai da face oeste para a face leste, e então se pode ver Chaltén e tudo em volta.

A partir daí, nos complicamos um pouco. Começou a fazer calor e tinha um monte de 'repisas' e platôs carregados de neve. Levamos uma piqueta para cima, caso fosse necessário cavar ou bater pitons nas paradas. Então o que aconteceu é que, às vezes, eu tinha que guiar lances que no croqui eram indicados como 4º grau, mas que estavam tapados de neve fofa, até os joelhos. Ou seja, não dava para tracionar e não tinha como proteger, pois a neve escondia as fendas ! Maluco, a parada foi bizarra ! Eu estava de sapatilha Snake, toda furada e empapada de neve, com os dedos congelando, de piqueta na mão ou na mão grande mesmo, me enterrando numa rampa de neve de até 50 graus de inclinação, sem proteção alguma ! Às vezes, dava para laçar um bico de pedra que se sobressaia na neve, mas nem pensar em cair, ia parar no inferno se resvalasse naquele troço. Esse tipo de escalada parece estar na moda por aqui. Os caras chamam isso de 'nadar em neve' ! Vai nadar assim na casa du carai !!! Não foi nem um pouco divertido escalar essas rampas. Já no final da via, onde pensávamos que a montanha ia arregar e deixar a gente seguir até o cume tranquilo, a coisa piorou. O último movimento para chegar ao cume eu ainda tenho bem guardado na memória. Estava metido dentro de uma espécie de chaminé de granito, coberta de verglass por todos os lados, e com neve fofa no fundo. Eu tive que meter as mãos congeladas dentro da cueca, para descongelar um pouco, isso me equilibrando como podia, com as sapatilhas enterradas na neve mole. Assim que os dedos descongelaram, eu pensei: 'é o último movimento, vamos montanha, me regala essa pelo menos, só essa passada e já é'. Nem precisa dizer que a proteção estava pendurada no meu pescoço, em forma de escapulário, porque a corda estava ali só para bonito mesmo, soltinha no vazio. Para baixo, o que me esperava era uma rampa neve de uns 15 metros, beeem inclinada, depois umas quicadas em uma rampa de granito empapado, uma proteçãozinha incrustada entre pedras soltas, o que resultaria provavelmente num fator 2, e meu grande companheiro Gaston provavelmente teria tempo de descobrir a velocidade que alcança um base jumper sem pára-quedas ! Loco, foi preciso respirar fundo e seja o que Alah quiser ! Meti as mãos no gelo, formado entre a rocha e a neve fofa, e me agarrei nisso, da maneira mas delicada possivel, e dale patinaço para arriba. A porra do gelo se esfarelou 2 vezes na minha mão, e 2 vezes voltei a me agarrar em neve, em gelo e em sei lá mais o quê, mas consegui me segurar e não escorreguei para o inferno, naquela chaminezita gelada ! Eram só 2 blocos, e não me deixavam passar para o cume, foda ! Bem, no final, a história teve um final feliz. Consegui trepar na chaminé de joelhos, sei que não é nada elegante, mas paciência, eu queria é viver. Voltei a me agarrar no gelo e utilizei todas as técnicas de pirambeirismo que aprendi ao longo dos anos e fui ! Montei nos blocos, agradeci a Deus e passei, cume !!! 

Mal deu tempo de curtir alguma coisa. O Gaston chegou bufando, tiramos umas fotos e já armamos o rapel. O tempo estava virando e ficando muito feio, maluco!  Tinha desaparecido tudo na nossa volta. Nada do Torre, nada do Fitz, nada de nada ! O que havia eram nuvens e ventania vindas de oeste. Os últimos largos transcorreram pela face leste da montanha e nem nos demos conta que o tempo havia virado, para bem pior. Aí anoiteceu, e foram inúmeros rapéis madrugada adentro, queixos batendo de frio, cordas presas em bicos de pedra, levadas pelo vento, fome, sede, prussicadas no escuro, alucinações, palavrões, xingamentos e todo o pacote sky de presentinhos patagônicos que pode te tocar às vezes.

Batendo um piton, me afrouxou a lâmina da piqueta, e a desgraçada caiu. Nem me dei conta. Ficamos com uma piqueta sem lâmina, só o cabo ! Afrouxou a porra do parafuso ! Sei lá, cada coisa loco, descemos só com um cabo de piqueta toda a rampa que dá acesso ao pé da via. O negócio tem uns 45 graus, olha, só indo lá para ver a porra ! Mas conseguimos, sei lá como, e lá pelas 5 da manhã de domingo cambaleamos para dentro do saco de dormir em Polacos. Nem comer conseguimos, fumamos um Phillip Morris cada um e beleza, caímos no sono. Ainda no domingo, à tarde, voltamos para Chaltén, em trapos, mas inteiros !

Da próxima vez, vou procurar uma raposa mais perto de casa ! Valeu Exupéry !

Abraço a todos na terrinha, vou dormir, que estão me “cerrando os zoio”. 'Seguimo' na peleia, fazendo o aguante! 

É nóis e zás ..."

Ricardo "Rato" Baltazar

Texto: Ricarto Baltazar e Eduarto Prestes

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Ricardo escala a agulha Poincenot



Ricardo Baltazar manda notícias da Patagônia, onde se encontra para uma segunda temporada nas montanhas da região.

Uma conversa no ônibus (a caminho de El Chaltén) e um dia de escalada nas imediações da cidade renderam um convite para escalar a Agulha Poincenot (3.000m) com dois experientes e respeitados escaladores - os austríacos Toni Ponholzer e Lui Krenn. O trio chegou ao cume da Agulha Poincenot no dia 07 de novembro, pela via Whillans-Cochrane. Para os austríacos, a escalada foi um aquecimento para o objetivo desta temporada, que é realizar a primeira ascensão integral da face norte do Cerro Torre. Para Ricardo, uma oportunidade de alcançar mais um cume importante na Patagônia e aperfeiçoar suas técnicas alpinas acompanhando a rotina de quem conhece o ofício. Ele mesmo dá mais detalhes da escalada e do início da temporada, em mensagem enviada aos amigos, alguns dias depois da ascensão.         

Trepei na Poincenot!!!

Não escrevi antes porque estava escalando. Ontem fiz um trabalho perto de Calafate! Fui arrumar uma antena. Graças a mim, Chaltén tem internet de novo!!! :) Um señor (que se chama Ricardo também) passou pelo camping e me contratou para escalar e arrumar uma antena que o vento havia derrubado. Fica numa montanha próxima a Calafate, chama-se Cerro Meseta. Foi fácil! Era subir e parafusar de novo. Mas levamos o dia todo - é longe. A rapaziada aqui do camping se abriu para mim! Um dia antes, havia escalado uma das agulhas mais emblemáticas daqui e, no outro, já estava trepado numa antena! Pode isso?

Cheguei aqui só com 100 pesos no bolso! Maluco, cheguei pela bola oito! Me deixaram ficar no camping sem pagar (eles não tinham outra opção). Paguei excesso de bagagem no Brasil, mas consegui passar por Buenos Aires sem pagar de novo (menos mal). Encontrei quase toda a galera do ano passado, trabalhando. O tempo estava bem aberto. Vocês tinham que ver o Torre com uma capa branca de gelo e céu azul! Reloco! O Fitzroy e cia branquitos. Era uma janela! Mas eu tinha que me organizar antes.

Depois destes primeiros dias o tempo não foi dos melhores. Mas assim é a Patagônia! Deu uma janela de uns dias no primeiro final de semana, mas ventava muito e as montanhas estão ainda carregadas com gelo do inverno. Andei escalando com 2 austríacos que chegaram junto comigo no voo e no ônibus, eles estão no camping também. Um se chama Toni e o outro é o Lui. O Toni já abriu e repetiu uma pá de vias por aqui. Ele tem uns 50 anos! O Lui, um pouco menos, 45 anos. Eles vieram tentar repetir a Maestri-Egger, na face Norte do Torre. Nos anos de 93 e 99, o Toni esteve quase no cume (faltou 200 m!). Agora eles vieram patrocinados. Os caras escalam muito! Fui com eles para um setor esportivo aqui de Chaltén e escalamos um dia inteiro, sem parar. Os véios mandam 7b à vista! Mais do que eu! :)

Mas vamos ao que interessa ...

Acertei na mosca por ter vindo mais cedo! Foi muito boa a abertura da temporada!


Acabou que fui com os austríacos para a Poincenot. Os caras são uns mutantes! Mas não desgrudei dos garrão. Segui parelho com eles. Acho que foi a banda mais pegada que já fiz! Mais do que a escalada do Fitzroy. Arrancamos sábado, a tarde, para o Passo Superior. Chegamos quase a noite, com vento e neve. Cavamos uma cova de gelo e nos metemos. Domingo amanheceu melhor e terminamos a cova para três ou quatro pessoas, com armário, porta, ... Descansamos o resto do dia e, às 18:00, fomos dormir. 


Acordamos às 2:00 de segunda-feira, bem como havíamos planejado. Às 4:00, o Lui já estava trepando na rimaia. Subimos pela Rampa Whillans - 800m, escalada mixta, 70º de inclinação e 6º em rocha. Aí foi que foi. Gelo, neve, rocha, em um bom dia frio, mas com Sol e sem vento.



Lá pelas 16:00 do dia 07/11, chegamos no cume!



Mal deu tempo de tirar boas fotos e já começamos a descer para pegar a rampa de dia. Os rapéis são todos em travessia e meio perigosos. Tivemos que fazer uns dead mens (com cordeletes amarrados em pedras enterradas na neve) para poder rapelar alguns trechos da rampa que estavam com meio metro de neve fofa. Os rapéis são meio sinistros! Tem que ir muito na diagonal para escapar do glaciar e voltar ao pé da via.


Chegamos na cova de gelo lá pelas 22:00 de segunda. Daí foi só bater queixo mais uma noite e, na terça, já estávamos descendo para Rio Blanco e para o Sol.


A noite, tomamos tudo o que encontramos pela frente! Os austríacos são viciados em ginebra e cerveja! Os caras parecem ter saído daqueles desenhos tipo He-Man! São uns brutamontes! Todos guias de montanha, gente fina para caramba, ...


Fiz altos vídeos com uma Go Pro! Só que, no cume, ela congelou e não deu para gravar mais. Logo devo editar as imagens.

Por enquanto é isso. Vem nova ventana semana que vem! Agora tenho que focar no Cerro Torre, canalizar toda a energia e tempo para ir lá e ver no que dá. Talvez eu já comece a carregar as minhas coisas para o bivaque Niponino nesta semana. Quero dar uma olhada mais de perto no carozo!

Para falar a verdade, escalar tem sido a parte mais fácil da gauchada. Difícil é chegar até aqui e tentar sobreviver no melhor estilo pêlo-duro.

Baaamooo!!!


Texto: Eduardo Nacul e Ricardo Baltazar.
Imagens: Ricardo Baltazar, Toni Ponholzer e Lui Krenn.
Edição: Orlei Jr.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

sábado, 23 de julho de 2011

Canastra solo

O montanhista Ricardo Baltazar acaba de escalar - em solo - mais uma via!

Desta vez ele mandou a Bugio Solando (6a). Bonita linha aberta no Pico da Canastra, em Canela - RS.


DALE RATO!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Ao desânimo dou albergue, à desistência, rua!

 
Pediram que escrevesse algo sobre minha viagem à Bolívia. A que fiz neste mês de julho de 2011. Entretanto, a deste ano, conduz à do ano passado. Inevitável. Mas que dá um branco contar minha aventura, ah, isso dá! Difícil, assim, de encomenda! Por isso, há 2 dias venho pensando, remoendo, arriscando até algumas reflexões. Tão xinfrins que dou um chega pra lá nelas. Melhor, pensando bem, ser simples, direta. Portanto, mãos a obra, e comecemos mais uma vez.
Bueno, viajar à Bolívia significa freqüentar a cordilheira Real cujas montanhas superam os 6 mil metros acima do nível do mar. Soma-se a esse apelo vertiginoso uma condição climática super favorável aos iniciantes neste esporte, onde me enquadro, já que o venho praticando há três anos. Pra nós brasileiros, tais altitudes, onde aflora o gigantesco playground formado por um formidável cordão rochoso, constituem um atrativo irresistível. Um objeto de cobiça que derrubou, não poucas vezes, namoros e casamentos. Em solo brasileiro não existe nada semelhante.
Vejamos. A maior elevação tupiniquim, Pico da Neblina, não atinge os 3 mil metros (alguns estudiosos, contrariando tal estimativa, afiançam que ele ultrapassa em 80 m os 3 mil). Bueno, sem querer desprezar os cumes pátrios, deixemos de lado as mesquinhas cifras e nos concentremos apenas nas dificuldades da ascensão, na tal exposição ou seja lá o que isso signifique. Até porque altura não é documento, assim como tamanho de pênis não é garantia duma boa trepada. Corroborando tal máxima, muitas de nossas “montanhas” não são nada fáceis de ascender. Pico Paraná, por exemplo, é bem marrento. E como! Em nossas serras Geral e do Mar, os matagais espinhentos e as irritantes florestinhas de bambuzal complicam deveras a ascensão aos seus cumes. Pero, alta montanha é foda, gente!
Não me entendam mal, montanhistas brasileiros! Por favor ... sim? Não quero com tal observação desprezar nossos modestos cumes. Muito pelo contrário. Adoro palmilhar as serranias, exuberantemente verdes e ariscas à travessia. Pero, a altitude, o frio e a ignorância em matéria de equipos adequados complicam bastante a aclimatação da galera brasileira que respira clima tropical em 70% de seu território. Foi bem isso o que se passou comigo nesta segunda estadia em solo boliviano. E olha que moro no sul onde reina um certo friozinho invernal. Ano passado, tirei de letra a aclimatação na Bolívia. Pode-se até dizer que foi suave, senti tão-somente leves dores de cabeça, abafadas rapidamente com comprimidos analgésicos. Desta feita, não levei a sério o sábio conselho de ingerir, nos primeiros dias de permanência em La Paz, que se encontra a 3.700 m de altitude, comidas leves. Me achando “a tal”, a nega véia do montanhismo, acostumadésima aos altos píncaros (que viagem, meu deus!!), mandei ver num  restaurante chinês da calle 20 de Octubre. E com avidez, sem nem mastigar direito, como se estivesse ao nível do mar, devorei rolinhos primavera, salteñas, arroz shop suey e camarão com pimentão. No meio da madrugada, acordei com uma puta dor de cabeça. Doía como se soqueada por uma manada de búfalos, daquelas dores excruciantes que se sentem somente após um tragoléu a la cowboy....ai que horror!! Juro, juro mesmo, por tudo o que há de mais sagrado: somente água foi o que bebi durante a janta. Nem pisco, tampouco cerveja e muito menos o saboroso viño de Tarija. Somente água!! O estômago, embrulhado, implorava uma curta viagem ao banheiro. Sacrifício extremo levantar da cama e arrastar meu corpo fragilizado até o vaso sanitário. E nada saía garganta afora! Sem outra alternativa, fui obrigada a “chamar o Hugo”. Durante dois intermináveis dias, permaneci sitiada no hotel, obrigada a assistir a horrível programação da net boliviana, numa tevê pequena, de péssima imagem, rabiscada por interferências nada semióticas. Sei lá se por masoquismo – deixo que Freud trate disso – congelei o controle remoto num canal de novelas mexicanas. Deliciosa e instrutiva convalescença a minha!
No terceiro dia – aleluia!! – já restabelecida, reúno-me a amigos brasileiros e com eles faço um trekking na região da cordilheira ocidental onde se espalham sobre o altiplano, entre outros, três grandes vulcões inativos: Sajama, Parinacota e Pomerape. E rios de águas calientes. E gêiseres!! Pequenos, por supuesto, emanando, todavia, fumarolas discretas que encantam nossos olhos virgens de tais fenômenos geológicos. E muitas lhamas e vicunhas que fogem ariscas quando se tenta fotografá-las de perto. Retorno a La Paz a fim de ultimar os preparativos de minha ida ao maciço do Condoriri. Onde se elevam dezenas e dezenas de 5 mil. Meu objetivo da vez? O Pequeño Alpamayo com seu adorável formato piramidal.
Ano passado, a meta foi o Huayna Potosí. Pra tanto, realizei uma caminhada de quatro dias cujo ponto de partida foi a laguna Tuni, seguido por um pernoite na laguna Chiartkhota com a hipnotizante visão dos nevados do Condoriri como pano de fundo.E sob uma lua crescentemente, gorda, num céu fartamente estrelado. No segundo dia, subida ao cerro Áustria com 5.300 m. tudo em prol da aclimatação! Nos demais dias, contornei não só a famosa e temível face oeste do Huayna como sua menos conhecida e inacessível face sudeste. Finalizei a pernada, na face leste, percorrendo sua rota normal. Equilibrando-me desajeitadamente em botas duplas de plástico, apoiadas em crampons, palmilhei, ao longo de 800 metros, durante 6 horas, “suaves” rampas cobertas de gelo e neve, cuja inclinação média de 20º, alcança em certos pontos 40º. Não foi nada fácil aquela pernada! Porém bom demais foi ver euzinha empoleirada na mais alta escada de minha vida: 6.088 m de degraus!!! Hahahaha!! Dizem que a altitude provoca euforia. Será? Hahahaha!! Falando sério, o Huayna Potosí é uma boa escolha pra quem deseja se aventurar no montanhismo de altitude.
Este ano, entretanto, acredite se quiser, não consegui fazer o Pequeño Alpamayo. E, vejam, soma apenas 5.370 m! Tive de me contentar com o anticlímax dos 5.320 m do Tarija. E a verdade deve ser dita, doa a quem doer! O Tarija, tecnicamente, não deixa de ser um platô que antecede ao Pequeño Alpamayo. Um prêmio de consolação pra quem não alcança o verdadeiro cume. Embora a diferença em altitude seja de 50 metros, não confundamos alhos com bugalhos. Há que se considerar que a distância entre os dois cumes perfaz longos e extenuantes 150 m de sobe e desce. Cobertas de neve desde sua base, estas montanhas são separadas por duas estreitas cristas, chamadas pelos bolivianos de “palas”, onde mal e mal pisam dois pés. De ambos os lados, descortinam-se altos despenhadeiros. É necessário galgar a primeira crista, uma íngreme ladeira, com aproximados 50º de inclinação, descer outra lomba de graduação semelhante, pra então ascender a segunda empenada, cuja inclinação, bate, um pouco antes do topo, nos 60º. Quando olhei pra aquele sobe-desce-sobe entre uma crista e outra, percebi, num átimo, que teria de palmilhar duas vezes tal trajeto. Afinal, toda ida pressupõe uma volta, ora bolas! Senti frio, preguiça e medo. Não só minha velha fobia de altura, domada a caro custo, deu pinta, como pensei no sacrifício que seria manejar o piolet durante a ascensão às cristas com os dedos das mãos em chagas devido a um virulento ataque de psoríase. Ganhou a parada a decisão de encerrar a escalada por ali mesmo, justo no topo do Tarija. Conformada, murmurei pros meus botões um “tá bom, Bea, se conseguiste chegar até aqui, foi de bom tamanho, portanto, meia-volta volver”. Só faltou o tapinha nas costas.
De volta a Porto nem tão Alegre assim, pois fustigada há cinco dias por teimosa garoa, vejo aquele cume e penso: por quê, por quê, hein, não o encaraste? Extraio uma rápida conclusão: embora mais alto, o Huayna Potosí, na sua rota normal, apresenta-se despido de desafios técnicos, exigindo apenas preparo físico, enquanto o Pequeno Alpamayo exige um plus: controle emocional e habilidade técnica na escalada. A mim faltou o primeiro requesito, infelizmente. Entre suspiros de desalento, dou de ombros, levanto a cabeça e decido: enquanto viva for, sempre haverá amanhã. Pra tentar novamente! Afinal, julho de 2012 nem tão longe assim está!! Por supuesto, ao Condoriri voltarei, rente que nem pão quente! De modo a derreter suas geleiras dessa feita!
Beatriz Azevedo