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Orlei Jr.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Entrevista com Eduardo Tondo.


Compilação da entrevista de Eduardo "Duca" Tondo cedida à Thiago Balen para a Associação Gaúcha de Montanhismo.

Escalador há 27 anos, Eduardo participou de 20 campeonatos e escalou nos seguintes países: Argentina, Chile, Espanha, Portugal, Itália, Áustria e Inglaterra. Formado em biologia, mestre e doutor em microbiologia, professor da UFRGS e vice diretor do instituto de ciência e tecnologia de alimentos.

TB: Você foi um dos pioneiros da escalada esportiva no RS como foi este processo?

DUCA: Naquele momento existia somente escalada tradicional e não havia a menor preocupação com a forma da escalada, por exemplo, usava-se pontos artificiais para progredir (pinos e grampos). Com a chegada da prática da conhecida hoje escalada esportiva houve uma preocupação com isto e também a instituição da “cadena”. Preocupação em encadenar a via, sair do chão e chegar até o final sem cair e sem usar pontos artificiais para progredir.

TB: A que você atribui este interesse na época e por volta de que ano ocorreu isso? Houve alguma influencia externa?

DUCA: O fato de todos escaladores começarem a namorar foi fundamental para consolidação da escalada esportiva, pois ela permitia escalar e voltar no mesmo dia, possibilitando saídas noturnas e a divisão do fim de semana com a namorada. Isto não era possível com a escalada tradicional, pois era necessário acampar, longas caminhadas enfim uma logística mais complexa. Isto ocorreu por volta de 1985, 86. Na época a influencia das revistas importadas foram fundamentais para este processo.

TB: Qual a principal diferença no foco da escalada esportiva daquela época e a atual?

DUCA: Continua exatamente a mesma. Mudança apenas na utilização de chapeletas e na textura das agarras utilizadas nos muros artificiais.

TB: Você segue ativo treinando e evoluindo até hoje. A que fatores você atribui isto?

DUCA: Apenas um: MOTIVAÇÃO.

TB: Qual foi a importância e como foi viajar pela primeira vez para Europa e ter contato com escaladores e com uma situação muito a frente da nossa realidade? Quais os benefícios e mudanças que isto gerou na visão e atitudes?

DUCA: Eu iria para Europa somente depois de fazer tudo que teria para fazer por aqui. Romper este “bloqueio mental” foi bastante marcante para mim. Outro fator que foi o fato de fazer parte dos cenários de revistas, o que motivou muito. O principal acréscimo técnico destas viagens foi na grampeação de vias. Hoje em dia o RS tem na sua maioria dos lugares uma grampeação literalmente “gringa” e isto deve-se em grande parte a isto.

TB: Quais são os benefícios gerais de realizar uma viajem de escalada?

DUCA: Auto conhecimento, ampliar a visão e principalmente a manter a humildade, pois por mais que você escale sempre vai encontrar alguém que escale mais que você.

TB: Cite uns locais de preferência no Brasil e no mundo?

DUCA: Brasil: Salto Ventoso e Cipó. Mundo: Sardenha na Itália e toda Espanha. (comenta sorrindo...)

Uma via: "Sexo algemas e cinta liga". Por quê? Beleza.

TB: Há anos atrás você e Rafael Britto esculpiram uma via. Hoje em dia no mundo inteiro isso ainda é uma discussão pertinente. Temos exemplos de vias importantes com estas características na Europa. Como você vê este fato?

DUCA: Uma via é uma obra como uma escultura, imagina quando se esta finalizando acaba matéria prima e você opta a deixá-la inacabada ao invés de colocar um pedacinho de Durepoxi para finalizar a escultura. (Forma como o Duca ilustrou e justificou agarras que são cavadas em pontos chave para dar seqüência a uma via que ficaria impossibilitada sem este fator. Comenta também que não cavaria, mas compreende perfeitamente quem faz).

TB: No ano passado você encadenou seu primeiro 8aFr, 9c BR “Homem Não Chora” . Dê um pequeno depoimento sobre este feito, importância dedicação, enfim...

DUCA: Teve uma grande importância pessoal pois evolui mesmo com o trabalho e também foi o ano de nascimento do meu filho. Fiquei feliz de evoluir com todos os fatores da vida. Romper a barreira do 8 a (FR) foi importante pois este grau é respeitado no mundo inteiro. (Salientou a importância de um treino orientado para alcançar este feito).

TB: Todo mundo fala que a escalada é muito mais que um esporte, que é um estilo ou uma filosofia de vida. Você concorda com isto? Por quê?

DUCA: Concordo em parte. Pois muita gente confunde isto com estar sempre “vestido” de escalador, questiono o estereótipo e os pré-conceitos. Tem diferença de quem escala somente para quem é escalador, e este pode ter uma vida paralela, consegue conversar sobre outro assunto, ter profissão e família sem precisar estar sempre sustentado nos estereótipos.

TB: A escalada esportiva é um esporte individual. O segurador tem uma função que aparentemente qualquer escalador pode exercer, mas como você vê a companhia de amigos ou de um real parceiro de escalada no desempenho, na evolução e na diversão?

DUCA: Não acho que a escalada esportiva seja individual. Talvez a parceria seja uma das coisas mais importantes da escalada. Eu, por exemplo, não escalo com quem eu não gosto.

TB: Você é um profissional bem sucedido (fora da escalada) e um escalador de alto nível. Tem alguma dica para os jovens que buscam este caminho?

DUCA: Quando faço a pergunta Duca comenta que não sabe se é uma ou outra coisa, mas responde: “Tem que ter motivação. Para ser escalador não é necessário ser “bixo grilo” ou não trabalhar. Pode ser uma pessoa normal com família e trabalho.

TB: Como você vê a evolução do esporte no RS?

DUCA: Vamos ter que colocar escaladas difíceis em paredes grandes. O boulder aumentou a força e agora vias longas prometem ser a evolução. Só não aconteceu ainda pela dificuldade de se conquistar estas vias.

TB: Como você vê a evolução dos escaladores esportivos no RS?

DUCA: Muito boa, impressionante, mas me preocupa por não estar vindo uma nova geração.

TB: Você foi um dos fundadores da AGM. Na sua opinião qual é a função de uma associação dentro do meio?

DUCA: Organização, motivação, manutenção. Grampear equipar, construção de ginásio (muro) e um constante incentivo ao esporte.

TB: E das federações e confederações?

DUCA: Fundamental. Estas entidades têm a função de representação do esporte a nível estadual e nacional, mas quem deve estar dirigindo estas, deve ser escalador, independente do nível mas deve estar escalando pois mantém o foco.

TB: Que dica você da para os escaladores que estão descobrindo a escalada hoje em dia?

DUCA: Pratiquem cada vez mais, independente do grau.

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