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Orlei Jr.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Entrevista com Neyton Reis.


Compilação da entrevista de Neyton Reis cedida à Silvia Marcon para a Associação Gaúcha de Montanhismo.

Neyton Reis tem 44 anos de idade, Gaúcho, natural de Porto Alegre é proprietário da Montanha Equipamentos nesta cidade. Pioneiro ativo no comércio de equipamentos de montanhismo no estado do Rio Grande do Sul é navegador e chefe de equipe de balonismo tricampeão brasileiro tendo participado em três campeonatos mundiais como representante do Brasil na maior equipe de balonismo já formada em toda a América do Sul, em viagens pelo Japão, Áustria e Alemanha. É socorrista de montanha formado pelo COSMO – PR, Bombeiro voluntário e Monitor da FFS (Federação Francesa de Espeleologia e Canionismo). Registra também em seu histórico 50 cursos de técnicas verticais lecionados na Escola de Bombeiros do Estado, e 12 cursos de canionismo nos cânions de Aparados da Serra e Serra Geral. Participou como instrutor na formação de bombeiros de resgate de mais de 25 nacionalidades diferentes em três cursos internacionais de resgate e primeiros socorros através da escola de bombeiros do estado em parceria com o governo Japonês. Em sua trajetória contam-se mais de 280 incursões a cânions seja conduzindo grupos, realizando busca, e resgates ou em conquistas como a do Josafáz (Aratinga), mais extenso cânion do estado (14.900 metros de extensão), paredes e acessos como as do cânion Amola faca, Boa Vista e Montenegro (em São José dos Ausentes) e Índios e Malacara (Cambará do Sul), entre outros.

AGM: Há quanto tempo você está envolvido com o montanhismo?

NR: Estou envolvido com o montanhismo, ou com as atividades de montanhismo, desde a infância, andando pra cima e pra baixo nas áreas e pedreiras do Lamí , Itapuâ e Canta Galo, imediações de Viamão, aqui mesmo no RS. Um grande amigo e companheiro nestas indiadas era o Àtila Portal, que é meio brother de criação e que vivia enfiado no meio do mato, isto já quando tínhamos cinco ou seis anos de idade.
Depois vieram o Morro do Chapéu em Sapucaia já numa estória de buscar a escalada, também o Itacolomí, Pudim, Iêie em Montenegro, Caçapava e até mesmo a pedreira do Asmuz,, aquele enorme buraco que se vê atrás do campus da UFRGS ,no morro Santana, onde já não se pode mais ir em função das broncas da maleza humana.
O João Giachim, os Cony, Edgar Kitelmann, foram pessoas muito especiais e importantes no meu ingresso na atividade de escalada, amigos que cultivo até hoje apesar da distância.

AGM: O que o motivou a engajar-se num esporte tão pouco conhecido na época? E o interesse pelo canionismo?

NR: Minha motivação foi natural para que eu continuasse e buscasse aprimoramento de técnicas e equipamentos. Bastou colocar os pés dentro do Itaimbézinho que as coisas começaram a passar na minha cabeça diariamente, trazendo sempre a vontade de voltar. O lugar é lindíssimo e depois de passar por ele você nunca mais esquece, e, como o Àtila mesmo diz, quem bebe da água de lá sempre volta. A exuberância da natureza, da fauna, dos elementos da flora e da geologia foram impressionantes para mim. Era diferente de tudo o que eu já havia visto.
As Gunneras eram gigantesgas, plantas Jurássicas que se desenvolvem nas bordas e no interior dos cânions chegando a ter folhas de 2 metros de eixo, o que bastava para que pudéssemos descansar abrigados da chuva ou sol em alguns momentos. Outra, eram as paredes, tão grandes que dava prá pensar em colocar uns 200 Itacolomís um em cima do outro, só prá comparar. Piscinas de àguas cristalinas, a bicharada, Curicacas, Seriemas, Gralhas Azuis, azuis mesmo, Cervos, Graxains, Gambás, serpentes e quartzo prá todo lado além das marcas do tempo, das enchentes e dos milhões de anos que se passaram para que deus houvesse criado e desenvolvido tudo aquilo.
Foi fascinante!!!! Eu queria e quero sempre poder voltar!!!!!
Como a vida dá voltas fui me relacionando com novas pessoas, grupos e interesses. O Gustavo Mariotto foi um destes. É uma pessoa excelente que muito me ajudou em vários trabalhos e conquistas no Malacara e Fortaleza. Fizemos vários trabalhos casca mesmo, conduzindo grupos sob enxurradas repentinas dentro de cânions ou em outras ocasiões realizando incursões punks, muitas vezes com pouco dinheiro e pouco material, a fim de conhecer e traçar novos caminhos para diversão aprimoramento e trabalho.
Depois vieram outros monstrões me incomodar; Rafael Britto e Henry Lummertz se aproximaram e com eles iniciou-se a idéia de, junto a criação de uma entidade de canionismo, a Associação dos Cânions da Serra Geral, buscar algo cada vez mais sério e regrado, com disposições que buscassem o desenvolvimento e a prática do canionismo de forma mais segura e orientada.
Realizamos juntos o curso da FFS que é a Federação Francesa de Espeleologia e Canionismo (FFS) com um trabalho bastante extenso de mais de dois anos de atividades e formação até o exame num curso lecionado pelo senhor Patrick Gimmat numa parceria franco brasileira. Formamo-nos Monitores e fizemo-nos grandes amigos.
Devo muito respeito a estes canionistas com os quais muito me divirto e aprendo e que aparecem por aí em cânyons por toda a parte do Brasil e do mundo

AGM: Como surgiu a idéia de trabalhar também com o esporte (loja, cursos, etc)?

NR: A jogada de trabalhar com equipos e pessoas veio por necessidade pura e simples.
Aqui no estado não havia nenhuma empresa que trabalhasse com equipos ou atividades mais " radicais" em ambientes naturais como era a nossa proposta. Daí a idéia.
Em 1990 Viajamos eu e o Àtila por lojas em outros estados e batalhamos algumas representações de mochilas e calçados. Na volta criamos a "ENTREFENDA", uma empresa que tinha o objetivo de conduzir pessoas pelo interior dos cânyons além de produzir e revender equipamentos específicos para a área de esportes de montanha e escalada.
Feliz ou infelizmente nossa sociedade não durou muito e logo se dissolveu dando lugar a Montanha Equipamentos, uma empresa individual com uma proposta mais aberta, trabalhando com numa visão mais abrangente e madura do mercado. Uma das salas da loja foi transformada logo de início em muro de escalada, com fenda, teto e tudo o mais. Foi uma fase muito legal em que a garotada freqüentava e treinava direto, o que era bastante divertido.
Depois que realizei a formação junto a escola da FFS comecei a lecionar cursos de Técnicas Verticais e travessias de cânyons. Com a loja crescendo o espaço foi sendo tomado pelo material. Outros muros foram se colocando pela cidade e então o muro foi dando lugar aos mosquetões, mochilas e cordas.

AGM: Em que aspectos essas atividades se relacionam? E na sua vida?

NR: Penso que a similaridade de alguns equipamentos e técnicas, a busca pelo ambiente natural e a grande quantidade de conhecimentos exigida faz com que os esportes de montanha se relacionem. Muitas vezes intentos mais severos transformam-se em jogos de paciência nos quais se exercitam o bom senso, a calma e a inteligência. Há muito que se respeitar. As dificuldades nem sempre são previsíveis e é preciso aprender até isto mesmo; prever o imprevisível. As forças da natureza, as intempéries, as temperaturas tudo pode se transformar em risco evidente. Todos nós, de uma ou outra forma, precisamos administrar nossas vidas e da mesma maneira penso que as montanhas, cânyons e cavernas despertam nosso interesse.
Não basta ir até onde todos vão. Sempre acabamos desejando ir mais a frente, mais fundo, mais alto, mais distante, mais difícil. Onde poucos chegaram, ou onde ninguém jamais foi. A mim também agrada muito trabalhar o planejamento e a logística. Gosto de realizar estudos de lugares nas cartas topográficas em fotos de satélite e em programas como o Google Earth que trouxeram uma série de vantagens e novas possibilidades para todos os inquietos.
Todo mundo gosta de juntar as tralhas e botar o pé na estrada para se divertir, fazer novos amigos e conhecer novos lugares. Na minha vida é isto quase que diariamente, estou sempre procurando bolar alguma indiada prá realizar, novos intentos, objetivos, cânyons, viagens e expedições. Conheço novas pessoas, ensino um pouco do que aprendi e com elas aprendo bastante, sobre de tudo um pouco. Isto é muito bom.
Graças a Deus trabalho no que gosto, e muuuuuito.

AGM: Você tem acompanhado muitos escaladores iniciantes, que aparecem procurando cursos ou equipamentos. Na sua opinião, pq a maioria perde a motivação nos primeiros meses?

NR: Penso que todos os mais experientes poderiam ajudar os iniciantes trabalhando durante mais tempo vias que estivessem ao alcance da capacidade destes indivíduos. É importante lembrar que no começo as escaladas chegavam a algum lugar ou levavam as pessoas a, com o auxílio de técnicas e equipamentos, alcançar um determinado espaço onde somente com estes subterfúgios poderia se chegar.
Com a tendência esportiva das escaladas a exigência técnica, psicológica e física torno-se obrigatória o que não se conquista em pouco tempo, nem tampouco sem um acompanhamento e uma preparação específica ao biotipo e a cabeça de cada um. Talvez seja este um dos motivos mais fortes.

AGM: Como você vê o montanhismo do RS hoje? Quais as perspectivas de futuro?

NR: Vejo o Montanhismo no RS com bons olhos, a gauchada é muito crítica e perfeccionista, fato que provavelmente nos coloca meio diferenciados dos outros estados em relação a organização de associações e grupos. Já tivemos e temos representantes do nosso estado escrevendo história na escalada em campeonatos brasileiros e vias de elevadas dificuldades no Brasil e no exterior. O Naoki Arima o Thiago Balen e o Guilherme Zavaschi são exemplos do potencial de nossos escaladores...
Podemos acreditar, e acredito, que temos um futuro brilhante nestas áreas. Os grupos hoje são mais homogêneos e organizados e a informação que se passa aos iniciantes é de alta qualidade. Nosso histórico de malogros é quase que irrelevante, mas importante o que aponta num caminho que só tende a melhorar dia a dia. Hoje o trabalho da AGM é notório e através desta associação muitas pessoas podem se engajar nas atividades com informação e encaminhamento confiável e comprometido, fornecidos por pessoas que dedicam o coração a palavra e a mente ao esporte.

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