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Orlei Jr.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

ZH entrevista Manoel Morgado


Manoel Morgado - primeiro gaúcho a escalar o Everest!

Em 1989, o gaúcho Manoel Morgado era um pediatra em início de carreira em São Paulo. Precisava trabalhar uma média de 12 horas por dia quando decidiu: essa não era a vida que queria levar. Aos 33 anos, pegou as economias, arrumou a mochila, preparou o espírito aventureiro e partiu para a Ásia, sem ter nada em vista. Nunca mais voltou aos consultórios.

Após 21 anos girando o mundo, o sucesso de Morgado a milhares de quilômetros de distância, nas montanhas do Himalaia, fez história em sua terra natal. Às 8h de 17 de maio (noite do dia 16 no Brasil), o alpinista tornou-se o primeiro gaúcho a conquistar o Monte Everest – o ponto mais alto do planeta, com 8. 848 mil metros de altura.

A trajetória até o feito inédito foi atípica. Desde que deixou o Brasil, Morgado não se prende a nenhum lugar, em busca da qualidade de vida – o que, para ele, significa colecionar aventuras. Aos 53 anos, não tem residência fixa (dorme em hotéis ou barracas) e não tem interesse em ampliar o negócio que toca com a mulher, a guatemalteca Andrea Cardona. O dinheiro ganho em um semestre guiando cerca de cem brasileiros na escalada de alguns dos picos mais difíceis da Terra é suficiente para garantir outros seis meses de “férias” – gastos, claro, com mais aventuras escalando montanhas geladas de todos os continentes.

Em duas entrevistas, uma por e-mail e outra por telefone desde São Paulo, Morgado relata a Zero Hora suas façanhas e admite: apesar de ter deixado o Rio Grande do Sul aos 11 anos, sente muito carinho pelos pampas.

Confira os principais trechos:

ZH – Você sentiu medo em algum momento?

Morgado – Acho que é impossível passar pela cascata de gelo e não sentir medo. Tudo é absolutamente instável, a qualquer momento enormes blocos de gelo podem desabar sobre você. E passei oito vezes na cascata. Também cruzar as grandes fendas (cravasses) sobre precárias escadas de alumínio, tendo enormes buracos de até 40 metros de profundidade abaixo de seus pés, é uma experiência muito nervosa. Acho que atravessei umas 150 escadas dessas durante toda a escalada. Mas, mais do que tudo, existe o medo constante de ficar doente e ter de abortar a escalada. Há quem tenha fratura de costela de tanta tosse.

ZH – Como foi a chegada?

Morgado – A gente teve uma noite fantástica, estrelada, linda, com um nascer do sol absurdamente bonito. Por 44 vezes eu vi o Everest de baixo. E daí, de repente, eu estava lá, vendo o mundo de cima, vendo toda aquela região que eu conheço com a palma da minha mão, só que do topo do Everest. Foi muito bonito, muito emocionante mesmo. A previsão do tempo dizia que neste dia começaria um vento muito forte, que poderia tornar nossa descida arriscada, de modo que fiquei no cume apenas 15 minutos. Cheguei, abracei meus companheiros de equipe, tirei as fotos tradicionais, agradeci aos deuses por terem me dado a permissão de chegar lá e desci.

ZH – É a primeira vez que você tenta escalar o Everest?

Morgado – Já estive no campo base do Everest 44 vezes guiando meus grupos, mas só agora me senti com todas as condições para tentar o cume. Tem a questão do tempo (mais de dois meses de expedição), a financeira (custa de US$ 40 mil a 70 mil – entre R$ 72 mil e R$ 127 mil) e o preparo técnico. Desenhei um programa de treino em montanhas cada vez mais difíceis e mais altas nos últimos dois anos. Depois que escalei o Cho Oyu, com 8.201 metros, a sexta mais alta do mundo, estava pronto.

ZH – Como foi a escalada?

Morgado – Este ano teve apenas dois períodos de dois dias para se fazer o cume. Isso atrapalhou bastante. Eu estava pronto dia 6 de maio para ir ao cume, mas só consegui dia 17. No total, fiquei 63 dias na montanha, boa parte disso acima dos 5 mil metros. O processo de subida até os 8 mil metros consiste no sistema “iô iô”. Você sobe cada vez mais alto para aclimatar, mas volta ao campo base para se recuperar. Acima dos 6 mil metros, o seu organismo se deteriora muito rapidamente.

ZH – Quais foram os momentos mais difíceis?

Morgado – Este ano nevou muito pouco, e as paredes estavam com gelo azul, duro como cimento e perigoso de escalar. No dia do cume, tive diarreia, e o tempo estava tão ruim que tinha certeza de que teria de descer ao campo base e, depois de alguns dias, subir tudo novamente. Afinal, às 18h, o tempo abriu, e às 21h partimos para o tão sonhado cume.

ZH – O que no estilo de vida que você levava não te agradava?

Morgado – Eu tinha dois empregos durante o dia e atendia no consultório no fim da tarde, fora o plantão à noite. No fim de semana, estava sempre cansado, e as férias eram muito reduzidas. Tudo isso era o contrário do que eu sonhava em ter. Queria estar viajando muito mais, estar em contato com a natureza. Daí veio a ideia de começar a trabalhar como guia (www.morgadoexpedicoes.com.br). Vivo de uma maneira muito simples, minhas maiores despesas talvez sejam passagens aéreas.

ZH – O que o impulsiona a enfrentar o perigo nas montanhas?

Morgado – Acho que o que sinto quando estou nas montanhas é muito mais forte do que o medo de morrer. Em nenhum outro lugar me sinto mais completo, mais feliz, mais em sintonia com a natureza.

ZH – Com certeza, você se sente mais um cidadão do mundo do que um gaúcho...

Morgado – Tenho um carinho muito grande pelo Rio Grande do Sul. Minha infância foi muito feliz lá e sempre penso com amor na minha terra natal, mas realmente sou cidadão do mundo. Há 20 anos não moro em lugar algum.

ZH – Qual é o próximo desafio?

Morgado – Com meus dois companheiros de expedição, ambos malteses, estou planejando a travessia da costa da Antártica até o Polo Sul, em novembro de 2011. Pela informação que tenho, menos de cem pessoas fizeram isso – nenhum latino-americano. São 1,2 mil quilômetros carregando um trenó de 150 quilos com tudo que precisaremos durante os dois meses de travessia, enfrentando temperaturas extremas e ventos incríveis. Como o ponto de início desta expedição é muito próximo do Monte Vinson, vou aproveitar para completar os Sete Cumes (as montanhas mais altas de cada continente). É o único que falta. Estamos muito entusiasmados, mesmo sabendo que será muito mais difícil do que o Everest.

ZH – Agora está em férias?

Morgado – Vim ao Brasil para divulgar a expedição do Everest, até para servir de empurrão para a próxima expedição, que necessariamente terá de ser patrocinada, por ter um custo altíssimo, cerca de US$ 100 mil (R$ 180 mil).

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