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Orlei Jr.

sábado, 5 de março de 2011

Ricardo Baltazar escala o Fitz Roy


SAIU LOCOOO!!! CRAVEI O BICHANO!!! JÁ POSSO VOLTAR TRANQUILO!!!

Essas foram as palavras de Ricardo Baltazar após alcançar o cobiçado cume do Fitz Roy, localizado na Patagônia Argentina.

Confira o relato dessa escalada:

"Sábado, dia 19 de fevereiro de 2011, estávamos eu e o Júlio no meio do glaciar da aproximação da base do Fitz Roy. Seguimos para o passo superior (caminhada alpina) até nos instalamos no bivac lá pelas 16:00.


Havia muita gente para, também, atacar o cume. Depois de umas cinco enfiadas de corda e um bivac gelado, levantamos às 23:00 pra comer e atacar a famigerada “Brecha dos Italianos”. 01:00 da manhã de domingo, dia 20 de fevereiro, já estávamos em marcha, cruzando o glaciar do passo superior cheio de gretas sinistras (íamos encordados, eu na frente abrindo caminho e seguido até por três argentinos que haviam saído ainda primeiro que nós). Saltei várias gretas e cai com uma perna dentro de uma, que por sorte era pequena. Afundei até a cintura!

Sobe, sobe, chegamos ao pé da brecha lá pelas três da manhã e aí nos preparamos para trepar a Rymaia (sinistra) e escalar os 300 metros de 5º misto. Demoramos um pouco porque logo encostou um espanhol e um argentino. Nos embolamos um pouco, mas tocamos para arriba. Chegamos no topo da “Silla dos Franceses” (no pé da rocha ) lá pelas nove da manhã. Ali sim estava uma muvuca!!!

Havia um casal na segunda enfiada (que não se movia), uma cordada de Barilhoche na primeira, os três argentinos no pé da via esperando pra entrar e nós, que chegamos seguidos de um espanhol e de um argentino. Tivemos que esperar ao Sol (dormi um pouco) os três argentinos entraram na enfiada (6a) mas não se moviam os “fia da puta”!

Júlio começou falar em descer, desistir e a situação começou a ficar tarde. Já era quase meio dia. O normal é começar a parte de rocha às 7 hs!!! Então o argentino que estava com o espanhol resolveu desistir e descer porém, antes disso, nos perguntou se aceitávamos seu parceiro espanhol, chamado Ino. Dissemos que sim, que ele poderia vir conosco. Tinham que ver a cara do loco! Quase chorando de felicidade de poder continuar a escalada, já que seu parceiro desistira (lá é raro o escalador que aceita desconhecido na cordada). O dia estava du caralho!

Peguei a ponta da corda e comecei o baile. Passei voando pelo 6a! O Julio e o Ino vinham escalando juntos limpando. Na 3° enfiada pedi, para os três argentinos que iam na nossa frente, licença para passar. Eles iam igual tartaruga! A parede jorrava água das fendas pois o verglass estava derretendo com o calor que fazia.


Passei os argentinos e comi 50 metros de um diedro, graduado em 6b+, molhado e frio. Dale friends! Depois guiei uma enfiada mais e passei a bola pro Júlio. Ele guiou também umas 5 enfiadas e passou pra mim de novo. O espanhol não escalava muito bem em rocha. Fiz mais um par de enfiadas e encarei a última pra sair na rampa de neve que dá acesso ao cume. Um 6c (francês) duro e gelado! Já era umas 9 hs (quase noite aqui). Artificializei o passo de 6c e meti o restante em livre. Os locos subiram e aí começou a epopéia!!!

A tal rampa final não tem nada de fácil, na verdade é a maior roubada!!! Em plena noite, de lanterna, num frio du caralho! Eu estava com todas as roupa que tinha levado e cagado de frio! Nunca passei tanto frio na minha vida! Estava ainda com os dois dedões dos pés insensíveis, dormentes! Foram um 300 metros de misto a 50º de inclinação, um gelo petrificado pelo vento, que nem os crampons agarravam direito. Para esse trampo passamos a bola para o espanhol como forma dele pagar o arrego que demos para ele. O bixo foi bem, de piqueta e crampom foi encontrando o caminho mas demorava muitíssimo!!!

Essa parte final do Fitz é enorme e ruim de se orientar. Eu assegurava, quando o Júlio assegurava, eu tentava dormir batendo queixo. Já eram 2 da madrugada de segunda e nada de ver o cume. A moral foi baixando, desidratados com fome e perdidos. Aumentou o vento ...

Finalmente chegamos ao pé de uma trepada de rocha e gelo, decidimos parar, estava muito sinistro, eu não conseguia ficar acordado, dormia até escalando de segundo. Engolimos aquele bivac famoso quase no cume. Eu construí uma espécie de taipa (pirca de pedra pra me proteger do vento) e organizei a favela brasileira (plástico, manta térmica, mochila pra entrar dentro e essas coisas). O Ino entrou na bolsinha de bivac de maricón da Nortface. O Júlio, acho que nem dormiu, ficou derretendo neve com o jetboil e disse que dormiu um pouco até que ferveu a água que derramou entre suas pernas.

Sonhei um pouco, um daqueles sonhos que sonhamos quando se esta em casa quentinho. Mas acordar e ter que encarar a dura realidade, na puta que pariu, congelado, fodido, cansado, prestes a ser varrido pelo vento, ... não é fácil!

Acordamos com o sol nascendo. Engolimos algo liofilizado e olhamos a parede final. Não parecia mais tão feia como parecia na noite anterior. Era uma trepindanga entre blocos e gelo. Dale pra arriba! Em 30 minutos chegamos no topo do Fitz roy com o sol nascendo!


Ficamos uma hora no cume sacando foto e rindo. Dava pra ver tudo embaixo, Poincenot, Guillamet, El Chalten e, inclusive o Cerro Torre, já não parecia tão imponente. Comemoramos e iniciamos a caravana da coragem!!!


Descer todo morro. Rapel e rapel sem fim. Mas por sorte deu tudo certo, a corda trancou só um vez e foi fácil reverter. Só o tempo que na segunda virou um pouco, entraram núvens e um pouco de chuva. Na descida da brecha foi mais sinistro, já estávamos muito cansados, o Júlio não encontrava as ancoragens e acabávamos rapelando em umas coisa sinistras, uns pitons abandonados e uns cordins velhos. Beckapeávamos as paradas e eu descia por último (o mais levinho) limpando. Eu já escutava uma musica nos ouvidos o tempo todo e o e espanhol dizia que ouvia o mesmo. Não parava a porra da música parecia uma rádio FM ligada. Quando eu piscava via flashes tipo de máquina fotográfica, sinistro, nunca mais vou esquecer isso (e ainda por cima tinha sempre que rapelar por último, sozinho). Devia ser efeito da desidratação de tanto tempo sem dormir. Terminamos o último rapel justo as 10 hs da noite de segunda e ai restava voltar às 2 hs de caminhada no glaciar ate o bivac do passo e a salvação. Nos encordamos e chegamos lá pela 1 da manhã de terca dia 22 de fevereiro, no bivac.
Eu já tinha os dedos dos pés completamente congelados. Eu alugara uma bota semirigida da Mad Rock que até aguentou bem o tranco, porém acabou molhando no glaciar pois a neve na volta estva feito um pirão. Tranquilos no acampamento, deretemos neve e comemos toda a comida que tínhamos mocado no bivac, porque desde o bivac do cume não tínhamos comido mais nada além de vento.


Na terça nos levantamos lá pelas 10 da manhã, nevava um pouco, arrumamos as coisas e nos tocamos para baixo. Foram duas horas de glaciar e gretas sinistras até a laguna de “Los Tres” e depois mais aquelas três horas ate Chalten e a Perdição!!!!!!

Estou bebendo até agora, não paramos. No fim da cordada, três argentinos dessitiram. O parceiro do espanhol desceu solo, o casal desisitiu na 3° cordada. Enquanto escalávamos, cruzávamos louco baixando que subiram pelo outro lado da montanha ou que subiram um dia antes que nos inclusive um guia italiano (que foi acertado por uma pedra na brecha e quebrou a clavícula) o qual fora contratado para levar um fotógrafo pra sacar foto do corpo do Bernardo na Afanassief, mas segundo contam por aqui, não encontram nada.


Acabei de falar com um argentino que subiu a Afanassief e disse que chegou até o lugar onde supostamente a Kika deixara o Bernardo e ele me disse que não havia ninguém lá, somente uns equipamentos e tal, disse que provavelmente ele tenha, por escolha própria, se lançado no abismo para dar um fim a seu sofrimento já que ele sabia que não haveria como ser resgatado vivo. Somente subindo a Supercanaleta talvez possam encontrá-lo. Parece que a família precisa de uma foto do corpo para os tramites de seguro e sei lá o que mais.

Fomos os últimos a fazer cume nesta janela de tempo. Voltamos com a cabeça feita e pela sorte que tivemos em relação ao tempo. Alto aguante, duas noites e dois dias pra poder trepar no grandalhão, o bixo não se entrega fácil!!!

Excelente saldo: Agulha Guillamet, El Mocho, Agulha Media Luna e Fitz Roy!!! Na próxima temporada Cerro Torre!!!


Valeu ter perdido a carteira e os documentos!

Grande abraço,

Ricardo Baltazar

5 comentários:

  1. pode crer, ratinho!! volta lá e dá de relho no torres!!

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  2. Fala RATO.
    Ahow de bola em.
    Parabéns.
    Espero chegar um dia a ter coragem para umas façanhas parecidas a essas.
    Abraço

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  3. Caro Ricardo.
    Parabens pela realizacao.
    Meu nome e Rodrigo e sou irmao do Bernardo Collares. Existem algumas informacoes postadas sobre o Bernardo s que nao correspondem a realidade. Acredito que tenham te passado informacoes equivocadas. E possivel entrar em contato com voce? Meu email e rodrigo.collares.arantes@gmail.com.

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