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Boa viagem!

Orlei Jr.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Ao desânimo dou albergue, à desistência, rua!

 
Pediram que escrevesse algo sobre minha viagem à Bolívia. A que fiz neste mês de julho de 2011. Entretanto, a deste ano, conduz à do ano passado. Inevitável. Mas que dá um branco contar minha aventura, ah, isso dá! Difícil, assim, de encomenda! Por isso, há 2 dias venho pensando, remoendo, arriscando até algumas reflexões. Tão xinfrins que dou um chega pra lá nelas. Melhor, pensando bem, ser simples, direta. Portanto, mãos a obra, e comecemos mais uma vez.
Bueno, viajar à Bolívia significa freqüentar a cordilheira Real cujas montanhas superam os 6 mil metros acima do nível do mar. Soma-se a esse apelo vertiginoso uma condição climática super favorável aos iniciantes neste esporte, onde me enquadro, já que o venho praticando há três anos. Pra nós brasileiros, tais altitudes, onde aflora o gigantesco playground formado por um formidável cordão rochoso, constituem um atrativo irresistível. Um objeto de cobiça que derrubou, não poucas vezes, namoros e casamentos. Em solo brasileiro não existe nada semelhante.
Vejamos. A maior elevação tupiniquim, Pico da Neblina, não atinge os 3 mil metros (alguns estudiosos, contrariando tal estimativa, afiançam que ele ultrapassa em 80 m os 3 mil). Bueno, sem querer desprezar os cumes pátrios, deixemos de lado as mesquinhas cifras e nos concentremos apenas nas dificuldades da ascensão, na tal exposição ou seja lá o que isso signifique. Até porque altura não é documento, assim como tamanho de pênis não é garantia duma boa trepada. Corroborando tal máxima, muitas de nossas “montanhas” não são nada fáceis de ascender. Pico Paraná, por exemplo, é bem marrento. E como! Em nossas serras Geral e do Mar, os matagais espinhentos e as irritantes florestinhas de bambuzal complicam deveras a ascensão aos seus cumes. Pero, alta montanha é foda, gente!
Não me entendam mal, montanhistas brasileiros! Por favor ... sim? Não quero com tal observação desprezar nossos modestos cumes. Muito pelo contrário. Adoro palmilhar as serranias, exuberantemente verdes e ariscas à travessia. Pero, a altitude, o frio e a ignorância em matéria de equipos adequados complicam bastante a aclimatação da galera brasileira que respira clima tropical em 70% de seu território. Foi bem isso o que se passou comigo nesta segunda estadia em solo boliviano. E olha que moro no sul onde reina um certo friozinho invernal. Ano passado, tirei de letra a aclimatação na Bolívia. Pode-se até dizer que foi suave, senti tão-somente leves dores de cabeça, abafadas rapidamente com comprimidos analgésicos. Desta feita, não levei a sério o sábio conselho de ingerir, nos primeiros dias de permanência em La Paz, que se encontra a 3.700 m de altitude, comidas leves. Me achando “a tal”, a nega véia do montanhismo, acostumadésima aos altos píncaros (que viagem, meu deus!!), mandei ver num  restaurante chinês da calle 20 de Octubre. E com avidez, sem nem mastigar direito, como se estivesse ao nível do mar, devorei rolinhos primavera, salteñas, arroz shop suey e camarão com pimentão. No meio da madrugada, acordei com uma puta dor de cabeça. Doía como se soqueada por uma manada de búfalos, daquelas dores excruciantes que se sentem somente após um tragoléu a la cowboy....ai que horror!! Juro, juro mesmo, por tudo o que há de mais sagrado: somente água foi o que bebi durante a janta. Nem pisco, tampouco cerveja e muito menos o saboroso viño de Tarija. Somente água!! O estômago, embrulhado, implorava uma curta viagem ao banheiro. Sacrifício extremo levantar da cama e arrastar meu corpo fragilizado até o vaso sanitário. E nada saía garganta afora! Sem outra alternativa, fui obrigada a “chamar o Hugo”. Durante dois intermináveis dias, permaneci sitiada no hotel, obrigada a assistir a horrível programação da net boliviana, numa tevê pequena, de péssima imagem, rabiscada por interferências nada semióticas. Sei lá se por masoquismo – deixo que Freud trate disso – congelei o controle remoto num canal de novelas mexicanas. Deliciosa e instrutiva convalescença a minha!
No terceiro dia – aleluia!! – já restabelecida, reúno-me a amigos brasileiros e com eles faço um trekking na região da cordilheira ocidental onde se espalham sobre o altiplano, entre outros, três grandes vulcões inativos: Sajama, Parinacota e Pomerape. E rios de águas calientes. E gêiseres!! Pequenos, por supuesto, emanando, todavia, fumarolas discretas que encantam nossos olhos virgens de tais fenômenos geológicos. E muitas lhamas e vicunhas que fogem ariscas quando se tenta fotografá-las de perto. Retorno a La Paz a fim de ultimar os preparativos de minha ida ao maciço do Condoriri. Onde se elevam dezenas e dezenas de 5 mil. Meu objetivo da vez? O Pequeño Alpamayo com seu adorável formato piramidal.
Ano passado, a meta foi o Huayna Potosí. Pra tanto, realizei uma caminhada de quatro dias cujo ponto de partida foi a laguna Tuni, seguido por um pernoite na laguna Chiartkhota com a hipnotizante visão dos nevados do Condoriri como pano de fundo.E sob uma lua crescentemente, gorda, num céu fartamente estrelado. No segundo dia, subida ao cerro Áustria com 5.300 m. tudo em prol da aclimatação! Nos demais dias, contornei não só a famosa e temível face oeste do Huayna como sua menos conhecida e inacessível face sudeste. Finalizei a pernada, na face leste, percorrendo sua rota normal. Equilibrando-me desajeitadamente em botas duplas de plástico, apoiadas em crampons, palmilhei, ao longo de 800 metros, durante 6 horas, “suaves” rampas cobertas de gelo e neve, cuja inclinação média de 20º, alcança em certos pontos 40º. Não foi nada fácil aquela pernada! Porém bom demais foi ver euzinha empoleirada na mais alta escada de minha vida: 6.088 m de degraus!!! Hahahaha!! Dizem que a altitude provoca euforia. Será? Hahahaha!! Falando sério, o Huayna Potosí é uma boa escolha pra quem deseja se aventurar no montanhismo de altitude.
Este ano, entretanto, acredite se quiser, não consegui fazer o Pequeño Alpamayo. E, vejam, soma apenas 5.370 m! Tive de me contentar com o anticlímax dos 5.320 m do Tarija. E a verdade deve ser dita, doa a quem doer! O Tarija, tecnicamente, não deixa de ser um platô que antecede ao Pequeño Alpamayo. Um prêmio de consolação pra quem não alcança o verdadeiro cume. Embora a diferença em altitude seja de 50 metros, não confundamos alhos com bugalhos. Há que se considerar que a distância entre os dois cumes perfaz longos e extenuantes 150 m de sobe e desce. Cobertas de neve desde sua base, estas montanhas são separadas por duas estreitas cristas, chamadas pelos bolivianos de “palas”, onde mal e mal pisam dois pés. De ambos os lados, descortinam-se altos despenhadeiros. É necessário galgar a primeira crista, uma íngreme ladeira, com aproximados 50º de inclinação, descer outra lomba de graduação semelhante, pra então ascender a segunda empenada, cuja inclinação, bate, um pouco antes do topo, nos 60º. Quando olhei pra aquele sobe-desce-sobe entre uma crista e outra, percebi, num átimo, que teria de palmilhar duas vezes tal trajeto. Afinal, toda ida pressupõe uma volta, ora bolas! Senti frio, preguiça e medo. Não só minha velha fobia de altura, domada a caro custo, deu pinta, como pensei no sacrifício que seria manejar o piolet durante a ascensão às cristas com os dedos das mãos em chagas devido a um virulento ataque de psoríase. Ganhou a parada a decisão de encerrar a escalada por ali mesmo, justo no topo do Tarija. Conformada, murmurei pros meus botões um “tá bom, Bea, se conseguiste chegar até aqui, foi de bom tamanho, portanto, meia-volta volver”. Só faltou o tapinha nas costas.
De volta a Porto nem tão Alegre assim, pois fustigada há cinco dias por teimosa garoa, vejo aquele cume e penso: por quê, por quê, hein, não o encaraste? Extraio uma rápida conclusão: embora mais alto, o Huayna Potosí, na sua rota normal, apresenta-se despido de desafios técnicos, exigindo apenas preparo físico, enquanto o Pequeno Alpamayo exige um plus: controle emocional e habilidade técnica na escalada. A mim faltou o primeiro requesito, infelizmente. Entre suspiros de desalento, dou de ombros, levanto a cabeça e decido: enquanto viva for, sempre haverá amanhã. Pra tentar novamente! Afinal, julho de 2012 nem tão longe assim está!! Por supuesto, ao Condoriri voltarei, rente que nem pão quente! De modo a derreter suas geleiras dessa feita!
Beatriz Azevedo

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